quinta-feira, 30 de setembro de 2021

FAL, MEU INSEPARÁVEL AMIGO!


FAL, MEU INSEPARÁVEL AMIGO!

Era começo dos anos 70... eu já estava morando no Rio.  O dinheiro do meu velho avô que vinha da Bahia tinha "criado asas".  Suas fazendas de cacau haviam sido penhoradas por um banco onde ele tinha pegado uma grana para custeio e não pode pagar.  E aqui, na Cidade Maravilhosa, eu era "custeado" pelo velho Cazuza, meu avô.

Foi assim que tive a oportunidade do primeiro contato com FAL. Um conhecido meu, que era Fuzileiro Naval, me disse: "Cara, por que você não entra pra Marinha?"  "É melhor do que voltar pra Bahia, com uma mão na frente e outra atrás!"  

Até que a idéia não era tão ruim assim... pensei.  

Seguindo a orientação do amigo, no dia 7 de abril de 1970, ingressei nas fileiras do Corpo de Fuzileiros Navais.  -  os "pragas amarelas", como eram conhecidos pelo pessoal da "Marinha de Gola".  Não sem antes realizar um concurso, claro.  A concorrência já era grande naquela época!

Assim que cheguei no Batalhão, passei por toda aquela transformação "natural" que faz um "paisano" virar "milico". Como (quase) todo mundo conhece a sutileza do processo não vou perder tempo contando. 

Não demorou muito e eu fui apresentado a FAL. Seu nome completo de batismo era Fuzil Automático Leve. Sua nacionalidade belga e seu calibre 7,62 milímetros.  Jamais imaginei que iria ter um amigo estrangeiro tão depressa no Rio.  E o que era mais importante, eu deveria mantê-lo permanentemente nas mãos, no ombro ou cruzado junto ao peito, próximo ao coração.  Isso, quando estivesse em vigília, pois, quando  dormindo, deveríamos dividir a mesma cama (beliche).  

Esse meu mais novo e inseparável amigo tinha características muito próprias: 1,10 metros de estatura, da soleira da coronha à ponta do cano,

A amizade por FAL foi tanta, que decidi ficar nas fileiras dos "pragas amarelas" por 30 anos. Porém, nesses 30 anos, tive que cometer algumas infidelidades com o amigo. Com menos de um mês, me apresentaram INA, uma brasileira que "vomitava pombos" mais rapidamente do que FAL. INA  era uma submetralhadora dengosa e, também, toda pretinha.  Seu nome era derivado de "Indústria Nacional de Armas". Mas, tinha uma mania que eu não gostava: engasgava de vez em quando, especialmente, quando tinha que "transar" uns balaços com maior rapidez. Quando eu enfiava o dedo de forma mais acentuada em seu ponto "G", ela sempre "travava".

Não demorou muito, e eu fui sendo apresentado a outras...  

Meu amigo FAL ficava um pouco enciumado, mas, não tinha jeito... Fazia parte da vida dos "pragas amarelas", conhecer e flertar com todas aquelas beldades.  Podia precisar se safar com uma delas num momento de sufoco, quando a "jiripoca piasse". E, naqueles tempos bicudos, no Rio, a "jiripoca" sempre "piava"!  

Tempos depois, fui obrigado a conhecer COLT 45.  Uma balzaquiana, nascida nos Estados Unidos, que provocava grande impacto entre os fuzileiros, pois o calibre de seu "alimento" era mais grosso, e, quando botava pra fora, fazia estragos irreparáveis. 

COLT 45 fora a amante preferida dos oficiais aliados durante a 2ª Guerra Mundial.

Depois vieram outras apresentações, novos amigos e novos amores. Armas como FAP -  Fuzil Automático Pesado  -; THOMPSON, uma "menina" fabricada nos EUA e que rivalizava com  INA, dentre outras, como as de grosso calibre, como os Morteiros, os Canhões Anti-Carro e os Lança-Rojões. 

Aconteceu o momento de ser apresentado a BERETTA. BERETTA era muito charmosa, carregava 15 "bombons" de uma só vez e possuía dupla-ação.  Ela veio pra desbancar COLT 45, que tinha uma idade avançada, mas não reinou por muito tempo. Foi logo substituída por TAURUS PT92AF,  lindíssima garota gaúcha, do Rio Grande. Também "engolia" e "cuspia" 9 milímetros, tinha a mesma capacidade de BERETTA e também funcionava em dupla-ação.

Ah, ia esquecendo...   Também tive um caso amoroso muito sério com MAG, quando fui do Pelotão de Petrechos.  MAG  -  a Metralhadora Automática a Gás   - esse  era seu nome completo. Pesadona e muito eficiente. Tinha a mesma nacionalidade de FAL e FAP  -  a Bélgica.  MAG possuía um impresionante poder de  "fogo"  -  até mil "azeitonas"  em um minuto!  Acima de tudo, era versátil. Deixava-se possuir em várias posições: a tira-colo, nos momentos de assalto, ou confortavelmente acomodada sobre um tripé, nas situações de defensiva. 

Nesses 30 anos nos "pragas amarelas", tive muitas "amantes", mas nunca abri mão da amizade com FAL. É que, muito cedo, descobri que FAL era o único que não me deixava "na mão"... Não "negava fogo" nem mesmo quando as circunstâncias eram altamente desfavoráveis: depois de mergulhado na água ou mesmo recoberto de lama...  FAL estava sempre pronto para o que desse e viesse...

Mesmo depois que fui apresentado e tive um leve contato com AR-15 e AK-47  -  espécie de primos carnais mais novos de FAL  -, não dei muita bola pra eles.  Havia uma grande amizade entre mim e FAL. Nada podia mudar isso.  Tinha com ele uma extraordinária consideração.  Além disso, FAL  confiava plenamente em mim e eu nele.  Mexia sem cerimônias em todas as suas partes.  Éramos tão amigos que eu o desmontava e montava em poucos minutos e até com venda nos olhos. Percebia suas peças apenas pelo tato; retirava-as e as colocava no lugar. Além disso, perdemos a conta das vezes que dormimos no mesmo bivaque, na mesma barraca, dentro d'água, no meio do mato...  Passamos pelos mesmos perigos... Juntos... sempre juntos! Quantas vezes guardei-o entre pernas, outras preso pela bandoleira, às vezes a tira-colo, enquanto dormia!? O medo de sermos surpreendidos um longe do outro era maior do que tudo, por isso o chamego. E, naquelas circunstâncias, um sem o outro não era nada! Chegamos a uma tal intimidade que, quando eu o mandava acertar o centro do alvo, ele não me decepcionava... era mosca na certa!  A sinalização que vinha lá do  fosso onde ficavam os alvos indicava: cinco pontos em cada disparo! Nunca demos "banho de areia" nos marcadores que ficavam abrigados nos pés dos alvos da Linha de Tiro. Por isso, minha mãe nunca era xingada por eles. Meu FAL foi responsável por me tornar um atirador de "1ª Classe" e respeitado nas fileiras dos "pragas amarelas". Hoje, meu amigo, você  -  caso ainda não tenha se "aposentado", como eu  -  deve estar em outras mãos...  Espero que bem cuidado, como antes... na base do óleo lubrificante nas quantidades certas nas partes móveis e bem sequinho, com flanelas e varetas, na alma raiada!


Souza Neto

terça-feira, 28 de setembro de 2021

SOBRE A DOR

 SOBRE A DOR


Atendendo aos ditames vigentes nesses dias em que ainda se convive com uma invisível e mortal criação humana - nesta bela terça-feira em que o Sol nos brindou com com seus raios vivificantes e cheios de energia -, preparava-me para ir até a orla de São Pedro da Aldeia para a costumeira caminhada matinal apreciando a lâmina d'água da maior laguna de água salgada do planeta  - a Lagoa de Araruama. 

Abro parênteses para dizer que nos anos 70, quando fazia o curso de Educação Física, aprendi com o Kenneth Cooper que "a vida é oxigenação". Aqui, em San Pierre di la Vilage, caminhar na orla da lagoa é uma das melhores opções para se oxigenar pulmões e tecidos musculares.  

Antes de sair - e enquanto Gilma se aprontava -, dei uma remexida nos livros que ficam numa estante e - quase que por acaso -, peguei o clássico de Gibran Khalil Gibran, O Profeta. Um livreto de pouco mais de cem páginas.

O Profeta já fora um dos meus livros de cabeceira em tempos idos.

Quem o leu, sabe que a história se passa praticamente na praça de um burgo conhecido pelo nome Orphalese onde um homem sábio (Al Mustafa) que vivera no lugar cerca de pouco mais de dois lustros, havia decidido deixá-lo e estava prestes a embarcar no navio que o levaria de volta à sua terra natal.

Antes de chegar à  praça e estar entre a multidão, o Profeta conversa consigo mesmo:

"Como poderei partir em paz e sem tristeza?"

"Todavia, não posso tardar mais. O mar que tudo chama a si, está me chamando, e eu devo embarcar."

Na sua caminhada em direção ao porto, viu ao longe homens e mulheres deixando seus campos e vinhedos e apressando-se rumo às portas da cidade. E ouviu vozes chamando o seu nome e outros anunciando a chegada do navio.

Uma vez mais, o Profeta, introspectivo, perguntou-se:

"O que oferecerei àquele que deixou o arado no meio do sulco, e a quem paralisou as atividades de sua vinícola?"

Tão logo entrou na cidade, todas as pessoas vieram ao seu encontro.

Cercado pela multidão, na praça central da cidade e enquanto aguarda a chegada do navio, Al Mustafa dispõe-se a responder as perguntas do povo de Orphalese.

Folheando ligeiramente a brochura, lembrei-me que entre as vinte e seis respostas dadas pelo Profeta havia uma em que ele respondia sobre a dor.

Devido aos momentos em que vivenciamos com o vírus chinês, busquei esse capítulo, cujos trechos a seguir transcrevo.

"E uma mulher disse: Fale-nos da dor.
 
E ele respondeu:

 "A vossa dor é o quebrar da concha que envolve a vossa compreensão."
 
"Assim como o caroço da fruta tem de fender-se para que o seu coração fique exposto ao sol, também vós deveis conhecer a dor."
 
"E se conseguísseis maravilhar-vos com os milagres diários da vossa vida, a vossa dor não vos pareceria menos intensa do que a vossa alegria; e aceitaríeis as estações do vosso coração, tal como haveis aceite as estações que passam sobre o vossos campos."
 
"E passaríeis com serenidade os invernos das vossas mágoas."
 
"Muita da vossa dor é escolhida por vós.  É a poção amarga com a qual o médico dentro de vós cura o vosso interior doente."
 
"Por isso confiai no médico e bebei o seu remédio em silêncio e tranquilidade; pois a sua mão, embora dura e pesada, é guiada pela mão terna do Invisível, e o cálice que ele vos dá, embora possa queimar os vossos lábios, foi feito com o gesso que o Oleiro umedeceu com as Suas lágrimas sagradas."

Finalizada a leitura desses trechos, pus-me a buscar o melhor entendimento dos escritos de Gibran diante da dor que a partida dos entes queridos de tantas pessoas tem provocado por conta da pandemia. 

Na ignorância que carrego, assemelho-me a uma gota d'água no oceano para poder acrescentar uma vírgula que seja a essa sábia resposta de Al Mustafa.

No entanto, arrisco-me a dizer...

Seu médico está dentro de você. Suas frequências vibratórias poderão ser o remédio que te propicia a cura ou o veneno que te contamina, te adoece e, por conseguinte, te traz a dor!

SOUZA NETO, J. A. - nascido debaixo d'um pé de cacau, é Oficial Superior da Marinha do Brasil, professor e membro da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (ALAC).   

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

UMA BANANA PARA O RACISMO

 UMA BANANA PARA O RACISMO 

Arranjei um tempinho para escrever sobre essa onda de preconceitos racistas que estão ocorrendo por aí. Em especial no Futebol. Aliás, não somente nesse esporte... Como em quase tudo nessas terras de Santa Cruz. 

Sinto-me bem à vontade pra falar do assunto... sou mestiço. Meu pai trazia muito acentuadamente os traços de sua descendência portuguesa; enquanto a minha mãe, marcantemente, os de sua origem indígena. 

No Brasil, o maior preconceito não é pela cor da pele; senão pela região de nascimento, pelo poder aquisitivo, pela humildade... 

Mas, isso incomoda a quem mesmo!?

Conheço gente que nasceu na roça debaixo d’um pé de cacau e galgou posições consideradas, digamos, de destaque por alguns. 

Dei risadas pelos cotovelos quando o baiano Daniel Alves descascou e comeu a banana que lhe foi jogada no campo durante uma partida de futebol realizada em um país europeu. 

Aos jornalistas, Daniel respondeu após o jogo:

“Estou na Espanha há 11 anos e há 11 anos é dessa maneira. Temos de rir dessa gente atrasada”. 

O resto e mimimi! 

E viva a diversidade! 


Souza Neto, J. A. – Nascido debaixo d’um pé de cacau, na cidade de Canavieiras, Bahia – é marinheiro, professor e membro da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (ALAC).

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

SEM IGUAL

 

SEM IGUAL

Em que outro lugar...


É possível encontrar

Tantas belezas naturais:

Rios, praias, manguezais,

Belos e esvoaçantes coqueirais! 


Em que outro lugar... 

Essa gente, essa Terra;

Esse vasto céu anil.

Procurando não encontro

Noutros cantos do Brasil!

 

Em que outro lugar... 

Rica fauna, flora...

Belíssima! Sem igual!

Somente em Canavieiras.

E a riqueza mineral? 


Não me faça esperar...

Marinheiro, professor!

Diga logo, por favor.

Nas andanças de além-mar

Lugar tão belo encontrou?!

 

Sem delongas nem rodeios...

Ó caixeiro-viajante!

Que já viajaste bastante.

Nas bandas por onde andaste,

Lugar tão belo encontraste?! 


Com o coração em êxtase

Falo de Canavieiras.

Terra amada por seus filhos.

Ao largo, singra o navegante

A deslumbrar-se com seu brilho. 


A contragosto finalizo

Essa prosa fraternal.

Neste meu blog não cabe

Milésimo... muito menos metade

Das riquezas e belezas da minha Terra Natal.

 

SOUZA NETO, J. A. - nascido debaixo dum pé de cacau, é Pai, Marinheiro, Professor-Regente do Magistério da Bahia e Membro da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (ALAC).

IMPACTOS DO REGRESSO

 IMPACTOS DO REGRESSO 

Júbilo e satisfação... voltei, revi, procurei...

Era junho de 2000; o povoado efervescia com os festejos a Antônio de Atalaia.

Defronte à singela orada, "surfando" minha face, os alísios vindos do Atlântico soavam como uma ode.

Sibilar emocionante a encharcar minh’alma de recordações dos tempos de menino.

Transcorrem os dias... Vem-me a percepção da realidade.

É visível o medo estampado na fronte de cada homem, cada mulher...

Meu aceno com o bom fruto e águas límpidas não fazia eco.

Parecia não haver sedentos que quisessem aproximar-se... e beber... e saciar-se.

Vi-me na encruzilhada do partir e do ficar.

Partir pela covardia de enfrentar... ficar pela necessidade de pagar a dívida social com o povo de Canavieiras, minha Terra.

Tomei a decisão mais difícil. Sentei-me nas encruzilhadas dos caminhos mais usuais. Aguardei maiores possibilidades de intercâmbio, trocas... Sem buscar recompensas.

Pus-me, expus-me diante dos poucos famintos e sedentos de saber e ansiosos por mudanças.

Quase nada a oferecer... apenas frutos do meu pomar, que não estavam podres, e um pouco de água limpa e cristalina, lentamente filtrada pelos anos.

Ousei, até ousei, imaginem! E por ousar rabisquei alguns textos.

Até disse, e ainda digo, que quatro páginas impressas era um jornal. O Aríete não tinha lado... nunca esteve “vendido”.

Senti, observei... Em alguns, vi reflexos de sensatez.

Teria encontrado quem quisesse comer do bom e maduro fruto? Beber e saciar-se da água pura?

Era cedo pra dizer. Minha necessidade em doar era maior que a daqueles que precisavam receber.

Minhas angústias eram pesados grilhões que me fortaleciam na perseverança e na busca de resultados.

Enfim, o estandarte estava desfraldado! Não havia mais possibilidades de recuo!

Pregava a defesa da moralidade e honestidade na administração pública; intencionava o banimento dos atavismos e o despertar da razão em todos os corações.

Com fibra e altivez, foi hasteado e mantido no topo das consciências; içado no ponto mais alto, onde o pensamento atávico, retrógrado não pudesse alcançá-lo.

Janeiro de 2009... Um pouco cansado de tudo... A mesmice campeando pelos quatro cantos...

Parti para dar abrigo aos anseios dos meus que reclamavam oportunidades de estudos mais avançados na cidade de Ilhéus.

No transcurso de 9 anos, minha vida foi uma gota de sangue nas veias de Canavieiras e uma lágrima nos seus olhos e um sorriso nos seus lábios.

Marchei com passo firme rumo à verdade. Como lâmpada que não se apaga, sal que o tempo não estraga, sonhos que o despertar de cada manhã não dissipa.

Trago comigo a certeza de que a muda do coqueiro plantado nas areias de Atalaia viverá mais do que todas as chicanas engendradas pelos políticos de minha Terra!

Que o carro de madeira puxado pelos bois na fazenda Barreiras é mais nobre do que todas as ambições dos mentecaptos do poder.

Que, até mesmo, as hortaliças plantadas nas terras secas da Burundanga durarão mais do que a pérfida negociata dos salafrários do poder contra meu povo.

Tentei reunir pequeninas sementes, que plantadas no solo fértil das Dragas, poderiam ter sido esperança de redenção de tua floresta seca. Mas, em meio a elas estava o joio!

Muitos estão satisfeitos. Eu sei. E haverá satisfação enquanto a inexorabilidade do tempo e a infalibilidade das Leis Universais não suplicar seus espíritos.

Eu – ainda que insatisfeito -, sigo com suavidade e paz, pois sei que há coisas em Canavieiras que os capadócios do poder nunca irão mudar:

O Rio Pardo continuará correndo para o mar ainda que alguns tentem represar suas águas;

Os ventos alísios continuarão o seu canto nas palhas dos coqueirais;

O vai-e-vem das marés continuará a dar vida aos teus manguezais.

Dia virá em que os falsos líderes, ambiciosos do poder temporal, que se sustentam às custas do suor alheio, terão o manto negro rasgado.

Dia virá em que a mentira escondida sob o véu das falsas inteligências e a astúcia disfarçada pelo esnobismo sucumbirão.

Então, a verdade genuína e desnuda olhar-se-á num poço de águas claras e verá seu rosto sereno e seus traços abertos.

Nesse dia, cada canavieirense sentir-se-á um sábio, que sentado à sombra dos coqueirais, olhará com indiferença para tudo que não é Deus, nem Luz, nem Sol! 

Souza Neto, J. A. - nascido debaixo dum pé de cacau, é Pai, Marinheiro, Professor-Regente do Magistério da Bahia e Membro da Academia de Letras de Canavieiras (ALAC).

terça-feira, 21 de setembro de 2021

O MENINO E AS LATINHAS

 Há pouco, postei uma prosa intitulada Maria.


"Maria", a personagem que protagonizou aquela prosa é de carne e osso.

No meu retorno à cidade onde nasci (Canavieiras), passei a observar mais amiúde tudo a minha volta.

No tocante aos aspectos socioeconômicos, olhava com certa atenção o modo de vida das pessoas mais necessitadas.

Descobri Maria!
Claro que não é esse o seu nome!

Maria se virava como podia...
Catava papelão nas ruas
Nas lixeiras remexia.
Pegava restos nas feiras...
E o donativo de um comerciante
De vez em quando recebia.
E assim, ia sobrevivendo...
A desafortunada Maria!

Maria criava sozinha três filhos. O maior com sete anos. Vou chamá-lo de "Menino das Latinhas", porque, a partir daqui, ele começará a protagonizar essa prosa.

Canavieiras, cidade que tem o turismo como uma de suas fontes econômicas, possui um extenso calendário oficial de festas.

Na madrugada de um determinado dia, quando curtia um show aberto, vi o filho de Maria de Canavieiras catando as latinhas de cerveja que os consumidores iam descartando nos coletores ou mesmo no chão.

Com muito jeito, me aproximei e iniciei um breve "interrogatório" com aquele menino.

Enquanto respondia, o "Menino das Latinhas" ia recolhendo e pisando nas latas antes de guardá-las em um saco de linhagem.

Nessa nossa conversa, fiquei sabendo que os depósitos de sucatas e recicláveis da cidade pagavam entre 1 e 1,5 reais pelo quilo do produto.

Naquela rápida conversa, o Menino das Latinhas disse-me que com dinheiro de uma noite conseguia comprar os gêneros para o café da manhã e ainda alguma coisa para o almoço da mãe e dos dois irmãos menores.

Continuando a nossa conversa, perguntei se era capaz de calcular o peso do material já recolhido. O Menino das Latinhas disse que sim.

Perguntei se venderia o saco de latinhas caso aparecesse alguém querendo comprar naquele momento. Ele disse que sim.

Voltei a perguntar se aquele comprador, depois de consumado o negócio, pedisse para ele ir pra sua casa dormir ele concordaria. Assentiu meneando a cabeça.

Concluindo aquele "negócio", entreguei ao menino o dobro do valor que ele mesmo calculara.

Quando ele ia saindo feliz, deixando o saco de latinhas eu falei:
- "Ei! E as suas latinhas?"
Ele retrucou:
- "Acabei de vender p'ro senhor!"
- Então, tá! - respondi e fui dizendo:
- "Por favor, venda-as a outra pessoa por mim e fique com o dinheiro!"

Essa história, foi escrita e salva no meu computador com o título "O Menino e as Latinhas". Mas, antes de publicar, eu perdi todos os meus arquivos.

Ainda não se armazenava nada em "nuvem". O meu computador travou e nem a Info Help, loja especializada em informática, conseguiu salvar meus arquivos.

Claro que a narrativa anterior era um pouco diferente, tanto nas palavras quanto na precisão dos dados.

Souza Neto, J. A. - Nascido debaixo d'um pé de cacau na cidade de Canavieiras, Bahia,  é pai, marinheiro, professor - peladeiro nas horas vagas - e membro da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (ALAC).  

MARIA

 Maria


Maria vai à feira, pra comprar o quê?
Maria vai com as outras, Maria sem vontade.
Maria não acredita, já não há verdade!
Maria ainda vive, mas viver pra quê?

Maria vitimada pela falta de Deus no homem.
Maria carpideira, chora, teu filho tem fome.
Maria vai à rua, perambula, olha a vitrine.
Maria desvalida, excluída,  aura sublime.

Maria sofrida, Maria aflita, Maria de dores,
Maria sem socorro, sem ajuda, sem flores.
Maria que chora, inconsolada carpideira,
Maria sem eira, Maria de Canavieiras.

Ilumina, ó Aparecida, Santa Maria!
Olhai a sofrida, desvalida, excluída Maria!
Ó Esplendorosa Virgem Mãe, Ave Maria!
Tem dó dos rebentos da pobre terrena Maria!

Maria madrugada, nas primeiras horas de pé.
Maria indaga, desolada: “...e agora, que será o café?”
Maria sem despensa, sem crença, nada no bolso.
Maria de novo pensa:  “...Deus, que será o almoço?”

Andrajosa vestida, raia o dia, rota Maria;
Vielas e guetos, vagueia, anda, roda Maria.
Angelical e pura, desventurada, bendita Maria.
Bondosa ternura, no coração, palpita Maria.

Vítima da indecência da “elite”, que insiste,
Na ganância impensada, persiste e seduz;
Valorosa Maria, morre, mas não desiste...!
No coração do Pai, és eterna Divina Luz!


(Souza Neto (novembro de 2003)

Souza Neto, J. A. - Oficial Superior da Marinha do Brasil, professor aposentado do Magistério da Bahia e membro da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (ALAC).

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

EM CAMPANHA

Estou em  campanha para um cargo político neste ano de 2020. 


Aviso aos "eleitores" que gostam de receber "uma coisinha" na hora de votar, que eu já estou me preparando para atendê-los.

Fechei contrato com uma olaria da região.

Telhas e tijolos pra cobrir e levantar paredes de barracos não será problema!

Estou em vias de contratar um protético (odontólogo é muito caro).

Vou mandar confeccionar dentaduras "universais".

Servem para qualquer boca, independente do número de dentes em falta.

Já estou enchendo um depósito com cobertores e filtros.

Para as cestas básicas, só estou estocando itens não perecíveis.

Os demais serão comprados depois.

Ah! Ia esquecendo! O cimento!

Cimento endurece com o tempo. Por isso, as carretas só chegarão no mês da eleição.

Qual será o cargo eletivo que vou disputar!?

Ainda não sei! Por enquanto, só defini o meu nome de urna:

CORRUPTO.

Receba um "presentinho" e vote em CORRUPTO!

Assim você poderá continuar reclamando da merda da Saúde, da porcaria da Educação, da (in) Segurança, da coleta do lixo, das ruas sujas e esburacadas e da PQP!

De quebra, ainda poderá assistir ao maior rombo de todos os tempos nas finanças públicas de sua cidade!

NÃO ESQUEÇA! CORRUPTO NA CABEÇA!

Autor:
Souza Neto, J. A. - Nascido debaixo dum pé de cacau, é Pai, Marinheiro, Professor Regente do Magistério da Bahia e Membro da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (ALAC)

HOSPÍCIO VERDE E AMARELO

Estou vivendo num hospício. Ou melhor, estamos...! Escrever isso me fez lembrar do Lima Barreto e do seu "Diário de um Hospício". 

Para mim, Barreto foi, o melhor escritor carioca. Depois eu justifico essa afirmação. Clara dos Anjos chegou às minhas mãos por acaso, depois li Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Em 2009, pela necessidade de ajudar minha mulher Gilma e meu filho Eduardo numa atividade do curso de Enfermagem, acabei pesquisando e lendo um resumo de Diário de um Hospício.

Como obra póstuma, Diário de um Hospício, foi montado com as anotações de Barreto durante um dos períodos em que permaneceu internado num manicômio no Rio, porque era alcoólatra.

No começo do século passado, os bebuns eram internados como loucos. Assim foi com Lima Barreto. Mas, somente porque era mulato e pobre.

Bem! Assim que tiver tempo, penso em escrever umas baboseiras traçando um paralelo entre o Brasil de hoje e a vida de Lima Barreto no manicômio. Até porque tenho a mesma motivação que o animava (guardadas as devidas diferenças quanto ao talento).

Barreto utilizava a indignação como inspiração e a transformava na "faca amolada" das letras.

Tem algo mais indignante do que assistir aos rumos que ora toma essa... esse... chamado Brasil!?

Estamos num vale tudo!

Lima Barreto conviveu com loucos no espaço reduzido de um manicômio; eu (e você que está lendo), num macro-manicômio do tamanho de um continente.

Depois de ter escrito essas "abobrinhas" todas aí em cima, acho que não vou escrever mais p... nenhuma! Minha indignação está se esgotando depois de ter escrito essas "bobagens".

Pra descarregar o restinho da indignação que ainda está represada, vou grafar um último parágrafo. Tá aí embaixo... pode ler!

E viva e esculhambação, a roubalheira, a pornografia, a inversão de valores, a enganação... Enfim, a deseducação!

#@+STF*&¨%$#@"!STF@#$$%¨STF&* - (Intraduzível)

VIVA OS MINISTROS DO STF E OS INTEGRANTES DO CONGRESSO  BRASILEIRO!

VIVA OS ELEITORES QUE TROCAM SEUS VOTOS POR UMA ESMOLA E TRANSFORMAM LADRÕES EM POLÍTICOS!

E... SALVE-SE QUEM PUDER!

Político

É um empregado do povo pago com dinheiro do contribuinte. A ele são atribuídos (delegados) poderes para defender os interesses da sociedade. 


O êxito na sua administração constitui obrigação, não devendo ser objeto de exaltação ou propaganda.

É remunerado para servir, não para servir-se!

HIPOCRISIA GLOBAL

 HIPOCRISIA GLOBAL 

A humanidade está carente de boas ações e tem muita gente querendo tirar proveito disso criando ONG e fazendo uso de sua capacidade de comunicação com a sociedade para obter dinheiro. Observe que determinados projetos só aceitam dinheiro! Quem doa não tem a garantia de que sua doação será utilizada para o bem dos que mais necessitam. No caso da Globo, vê-se claramente que que se trata de uma instituição sem compromisso com a evolução e o bem-estar da sociedade.
Enquanto com uma das mãos recolhe dinheiro a pretexto de ajudar pessoas carentes, com a outra faz apologia da violência, do crime e da pederastia com suas séries, programas e telenovelas.

domingo, 7 de julho de 2019

ARREGO!

Fui obrigado a clicar em OCULTAR um banner em que apareciam dois escudos do Flamengo e um do Corinthians e perguntava qual eu mais gostava.
Que porra é essa gerenciadores do Face!?

Não gosto de porcarias!  Sou BAHIANO e NORDESTINO! Sou BAHÊA, PORRA!!!

Outro banner mostrava alguns cantores fajutos...

Não tinha o Pink Floyd, nem o Guns & Roses, nem o Scorpion, nem o Barão Vermelho, nem o Legião Urbana, nem o Creedence Clearwater Revival, nem nenhuma das dezenas de bandas do Rock and Roll mundial de boa qualidade... DELETEI!!!
😜😜

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A SAGA DE DIÓGENES


Diógenes de Sínope, O Cínico, como também ficou conhecido, era um filósofo que viveu em Atenas. 

Naquela cidade grega, tornou-se   discípulo de Antístenes, antigo pupilo de Sócrates. Decidiu perambular pelas ruas de Atenas como um mendigo, fazendo da pobreza extrema uma virtude.  Sua casa teria sido um grande barril. Andava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia. Dizia estar procurando por um homem honesto. 

Tempos depois, foi viver em Corinto, onde continuou a buscar o ideal Cínico da auto-suficiência: uma vida que fosse natural e não dependesse das luxúrias da civilização. Por acreditar que a virtude era melhor revelada na ação e não na teoria, sua vida consistiu duma campanha incansável para desbancar as instituições e valores sociais do que ele via como uma sociedade corrupta.

O Cinismo de Diógenes nada tem a ver com o conceito pejorativo de pessoas sem pudor, indiferentes, falsas ou descaradas. O Cinismo é uma corrente filosófica que parte do princípio de que a felicidade nada depende do externo ao indivíduo. O mais importante representante dessa corrente foi Diógenes. 

Diógenes teria sido aprisionado por piratas  e vendido como escravo. Um homem com boa educação chamado Xeníades o comprou. Logo ele pôde constatar a inteligência de seu novo escravo e lhe confiou tanto a gerência de seus bens quanto a educação de seus filhos.

São muitas as citações da vida de Diógenes. Numa delas, conta-se que um dia Diógenes foi visto pedindo esmola a uma estátua. Quando lhe perguntaram o motivo de tal conduta ele respondeu "por dois motivos: primeiro é que ela é cega e não me vê, e segundo é que eu me acostumo a não receber algo de alguém e nem depender de alguém."

Moral da história: se nosso filósofo Diógenes teve tanta dificuldade para encontrar um homem honesto na Grécia Antiga, imagina se vivesse nos dias de hoje em nossa região e fizesse o mesmo! No grupo político que aí está, então, nem se fala!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

QUEM INVENTOU O ROCK AND ROLL?


O norte-americano Chuck Berry é considerado por muitos o inventor do Rock and Roll.
 
Berry tem hoje 85 anos e começou sua carreira musical na década de 1950. A música Maybellene (1955), seu primeiro single, é tida como uma das primeiras canções de rock. O cantor e compositor foi um dos principais nomes da Chess Records, gravadora que também lançou Etta James e Muddy Waters. Johnny B. Good, Roll Over Beethoven e Carol estão entre os hits mais famosos do cantor.  São clássicos inesquecíveis do rock.

Apesar de muitas bandas passarem a compor e cantar o rítimo criado por Berry  -  entre elas a de Bil Halley  -, foi preciso um branco e boa pinta para que a música pegasse comercialmente. Esse cara foi o Elvis Presley, que se transformou no Rei do Rock.  Claro que o Elvis também tinha muito talento, mas não se pode tirar o mérito de Charles Edward Anderson Berry. 
 
Berry nasceu em Wentzville, no Missouri, dia 18 de outubro de 1926.
 
Em 1986, Chuck Berry foi um dos primeiros roqueiros a entrar para o "Rock And Roll Hall Of Fame". Sua importância para o rock é essencial. É considerado por muitos o verdadeiro rei do rock, título usurpado por Elvis Presley. Certa vez, John Lennon em entrevista chegou a afirmar, "se vocês querem dar outro nome ao rock´n´roll, podem chamá-lo de Chuck Berry". 

"XI-JÉGUE"

Estava pensando em escrever um bom artigo sobre o "baianês".  Tecer considerações a respeito de expressões largamente empregadas por nós, bahianos, como: "oxi", "vixe", "nestante", "pocou", "mais eu", "ni",  além de outras. Não parece tarefa fácil, pois tem o "baianês" sulbaiano, o oestano e o metropolitano. Arrghh!!!

Tá difícil "véi". A "bola-sete" entrou em sinuca-de-bico e o taco espirrou! Tô na "Briosa"! É...!!! de volta! E o tempo anda escasso, "sô"!

Pra não deixar o blog parado, decidi republicar algumas abobrinhas escritas tempos atrás. 

Aí está uma delas:

 

("XI-JÉGUE" foi postado originalmente em fevereiro de 2011)   

 

 "XI-JÉGUE"

Fazia uma bela noite em Alécia. O calor era intenso e qualquer fiapo de brisa seria muito bem-vindo naquela praça do Pontal. A lua, sorridente, abraçava a todos com seus raios luminosos.

Ágabo chega e senta-se em volta de uma das mesas. Logo depois, seu amigo Aristides faz o mesmo. À frente dos dois, num "trailer" esfumacento, gente se desdobra, nas chapas quentes e engorduradas, para atender aos pedidos com a maior brevidade possível.

Chega um rapaz, travestido de garçom,  ao qual Ágabo solicita o "menu", num francês pra ninguém botar defeito.  

- O quê? "meni"? - surpreende-se  o rapaz.

- É!  Mas, se não tiver "meni" pode trazer o cardápio mesmo!  -  diz Ágabo.

Enquanto isso, Aristides só observa.
Já de cardápio nas mãos, Ágabo esbraveja.

-  Mas, que diabos de tanto "Xis"!

- O que foi Ágabo?  -  interroga Aristides.

- Dê uma olhada...  -  e foi passando o cardápio. - Olha Aristides, quase todos os sanduíches começam com a letra "Xis"!

- Ahn... é verdade.  -  Aristides concorda com o amigo.

- Já leu?  Tem diversos "espécimes" de sanduíches cara! "X-Egg", "X-Bacon", "X-Tudo", e por aí vai...

- Sim, e daí?  - pergunta Aristides.

- Logo você cara!?  Alguém que eu tenho na conta dos intelectuais... Você, "O Brilhante e Astuto", me fazendo uma pergunta dessas depois de ter lido essas baboseiras!?

- Calma velho!

- Onde você já viu se escrever queijo com Xis!?  -  pergunta Ágabo.  -  E ainda dizem que "O Incerto" sou eu! -  completou, demonstrando irritação.

- Ah... entendi...

- Aaahhh!  Já percebeu?  E antes que você me diga: "É queijo em inglês, seu burro!", eu vou lhe dizendo que queijo em inglês é com "C" e não com "X".  Escreve-se "Cheese", cuja pronúncia correta é "tchiiz" e não "Xis".
  
- Tá bom!  Não precisa fazer discurso!  Nós viemos aqui pra quê?

- Pra comer, né!?

Mal Ágabo havia respondido, chega o "garçom" com os pedidos:

- O "Xi-Jégue" é de quem mesmo?

Ágabo olhou pra Aristides, que também olhou pra Ágabo.  E os dois deram uma sonora gargalhada.

- Tá vendo... - foi dizendo Ágabo.  -  Queijo virou "Xi" e ovo virou "Jegue".

Saíram dali comentando sobre a fertilidade da imaginação dos brasileiros em criar novos verbetes.  Não demora muito, o Ximenes ou o Aurélio incluem essas baboseiras nos seus dicionários com os significados estapafúrdios que as pessoas querem dar a elas, concluíram.

Notas: 
1) BAHIANO! Foi assim que escrevi! Bahiano tem que escrito com "H" PORRA!!!! E com o "HI" tônico. Baiano, sem "H", é pra quem nasce e/ou vive em baia, local onde os equinos descansam e se alimentam. Os gramáticos que se fodam! Não sabem nada! São todos burros!

2) ARISTIDES - O Brilhante e Astuto (em grego).

3) ÁGABO  -  O Incerto (em grego).

Autor: Souza Neto (26/02/2011). 
(Membro da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (ALAC).

ILAÇÃO DO DIA

Nunca deixei de usufruir do DIREITO de escolha pelo VOTO. Talvez, por não querer usufruir do DIREITO de excluir-me da responsabilidade pelos descalabros políticos que assolam o Brasil!

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

COMO A INGENUIDADE E A TOLICE FERTILIZAM AS ESPERTEZAS

Fazia uma manhã modorrenta em Alécia. Mesmo àquela hora  - e já passava das 8  -, o sol teimava em se esconder por detrás de espessas nuvens acinzentadas. 

Andando pelo centro, Alethea se depara com Abnara (sem trocadilhos). Abnara está a aguardar a chegada de uma amiga comum aos dois: Talassa.  

Oriunda de Soterópolis, a embarcação que a traz perdeu o horário. As condições do mar não estão muito favoráveis à navegação.

Talassa
Enquanto aguardam, Alethea e Abnara tratam de colocar o papo em dia.

Abnara comenta com o amigo sobre as tentativas dos "eco-espertos" jogarem a população de Alécia contra os empreendimentos estruturantes que estão porvir: o Porto e a Ferrovia.

- Esses tais "ambientlistas" são semelhantes a certos "religiosos"...

- Como!  -  Alethea interrompe, impedindo Abnara de concluir seu raciocínio.

- É isso mesmo!  - completa Abnara.

E Abnara prossegue:
- A humanidade não pode reclamar por não ter sido alertada! O Homem de Nazaré foi muito claro quando recomendou para se ter cuidado com os falsos profetas.

- Sim, e daí... Não estou entendendo! Onde está a semelhança entre os falsos profetas e os "eco-chatos"!?  -  interroga Alethea, demonstrando certa ironia.

- Na forma de enganar, velho!  Na maneira como fazem dos incautos e menos esclarecidos uns bobocas!

- Ah! Sei...  -  Balbucia Alethea.

- E veja que os motivos são os mesmos, tanto dos falsos profetas da religião quanto dos falsos profetas do meio ambiente: ganhar dinheiro!  Os "religiosos", dos pobres coitados; os "eco-espertos", dos ricaços do mundo!

- É, mas por que isso acontece...? 

- Porque os motivos dos enganados também são semelhantes!

- Como!?  -  Alethea quase sai do chão.

- Simples, meu caro.  -  Retorna Abnara com sua voz pausada e mansa.  - Não se esqueça de que a maioria dos homens na Terra está sempre em busca de um degrauzinho para o Céu.  Pelo menos os ditos espiritualizados... Os que não são materialistas nem agnósticos.

- É... Você tá certo!  -  Consente Alethea.

- Por isso tornam-se tolos e são facilmente enganados pelos falsos profetas das religiões. Você já notou como número de igrejas não para de crescer! Cada dia surge uma nova e com nome novo!? E geralmente com seus templos encravados nas comunidades mais carentes e menos esclarecidas!?

- Calma Abnara, não precisa fazer discurso!

Fingindo não ouvir as ponderações do amigo, Abnara continua:
- Pipocam aqui, ali, como se fossem milho jogado no óleo quente!

- Mas, por que os caras se deixam enganar assim!?

- Velho, já lhe disse: anseiam por um degrauzinho que os leve até o Céu!  E, por sua própria inteligência limitada, esses homens e mulheres se tornam joguetes da ilusão!

- Sei, mas o que leva as pessoas a serem enganadas pelos falsos profetas do meio ambiente, se estes não prometem nada das esferas celestiais? 

- Ah! Cara! Aí a moeda de troca é outra!  Diferentemente daqueles que querem um "terreninho" no Ceú, os sublimados pelos "eco-espertos" querem um terreninho aqui mesmo na Terra.  Uma gleba, um sítio... uma área cheia de mato... um riozinho ou uma lagoa pra pescar uma piaba e colocar no espeto. Coisas assim! E querem que o desenvolvimento passe bem longe, ainda que seus descendentes tenham que comer o pão que o diabo amassou para sobreviverem miseravelmente, quando poderiam muito bem tirar proveito do mundo tecnológico que aí está.

- Porra, cara!  Quando você engrena não quer mais parar de falar!

- Eu só estou tentando lhe explicar, Alethea. O homem é um tolo. Seu orgulho e sua pouca inteligência leva-o a aceitar erros por verdades e repelir verdades como se erros fossem!  E o resultado colhido desses enganos são as decepções.  Decepç...
 
- Olha lá!  Lá vem nossa amiga Talassa!  -  Exclama Alethea apontando o indicador na direção de um pontinho quase imperceptível no horizonte do mar de Alécia.

Foi o suficiente para ambos encerrarem aquela conversa e a passos lépidos dirigirem-se ao cais.

Por: Souza Neto


Índice remissivo:
- Alécia - Aquela que é banhada pelas águas do Mar.
- Alethea  -  Verdade Suprema.
- Abnara  -  Luz da Sabedoria
- Talassa  -  Vinda do Mar